Como tirar um projeto do papel

Empresa ou empreendedor, não importa, todo mundo tem um projeto que não sabe se vai sair do papel. É o medo da ideia não funcionar e das pessoas não usarem sua criação que faz parecer que ela sempre pode esperar mais um pouco. É aquela desconfiança de não saber se é prioridade ou se vai dar algum retorno que soterra qualquer grande ideia. Tudo somado à falta de conhecimento sobre quanto vai custar ou levar para ficar pronto.

Pior, quando essas incertezas passam, surgem outras. Começam as dúvidas sobre qual empresa contratar e chegam diversos orçamentos caros. Quanto vai custar pra manter depois? Vou me surpreender com gastos inesperados? Enfim, a lista continua para quem planeja e começa a vislumbrar o futuro.

Para essas perguntas - extremamente comuns na concepção de um projeto - a única solução parece ser reduzir custos e riscos. Contando com isso, várias alternativas que podem afetar na qualidade do produto final surgem como opção. Procuramos apontar um caminho entre elas, com o que deve e o que não deve ser feito nesse momento.

 

como não resolver

 

Terceirizar

Parece tentador terceirizar o problema, entregando o abacaxi nas mãos de uma pessoa capaz de te dar todas as respostas. Mas contratar uma consultoria (daquelas que não te envolvem no processo) ou buscar insights em metodologias antiquadas (como um focus group ou um brainstorm) não são a melhor opção. Assim como contratar uma pessoa nova ou passar o problema para outra área também não é.

Em todos os casos, ninguém conhece o negócio melhor do que quem tomou a iniciativa de buscar uma solução. Então, por que delegar o que pode ser resolvido por você? Se o que falta é algum direcionamento, a resposta não reside nessas soluções. Elas podem ajudar de alguma forma, entretanto, falham em realmente evitar que sua ideia seja um fracasso. O que você precisa nesse momento é saber se sua ideia funciona.

 

Desenvolver

Sair desenvolvendo também não é uma solução. É só ir de encontro aos problemas, sem ter necessariamente uma luz sobre eles. É o pior dos casos, em que fixar um budget — portanto um escopo — soa como uma boa forma de minimizar danos. É como estipular um espaço limite para errar e cruzar os dedos. Isso tem seus riscos, lógico, dos quais falamos no nosso último post.

Nessa lógica, a solução seguinte é buscar um fornecedor que seja barato para maximizar essa verba. Claro, onde os desenvolvedores estão influencia no valor cobrado e importar mão de obra parece interessante. Com valores hora/homem de U$15 a U$175, é possível encontrar diversos tipos de empresas da América do Norte à África. Confiar em um familiar ou contratar um freelancer também entram na pauta, mas em todos os casos, as discrepâncias nos valores sinalizam para muitos um descomprometimento na qualidade do produto final.

A não ser que você tenha um nível razoável de conhecimento sobre tecnologia e possa controlar os processos e o fluxo de trabalho, abrir mão de profissionais de uma companhia de desenvolvimento confiável pode colocar o projeto em risco. Problemas relacionados vão desde incerteza de entrega e falta de experiência até coisas sérias como violação de direitos autorais. Por isso, a ressalva quanto a busca constante por desenvolvedores de baixo custo.

 

Comprar um produto pronto

Outra possibilidade é investir em um produto "de prateleira". Um template desenvolvido para terceiros ou uma cópia da solução de um competidor que nunca será tão customizável quanto uma solução proprietária. Seria o mesmo que assumir que você não enxerga o seu consumidor de uma forma única ou que o seu negócio não tem nada de diferente para oferecer — o que acreditamos que não seja o caso. Tudo isso nada mais é que uma forma não de contornar os problemas reais e tirar a ideia do papel (de uma forma não muito boa).

 

e como resolver?

 

Diante de tantos nãos que atraem a atenção daqueles que querem pôr em prática algo aparentemente promissor, fica a pergunta sobre o que fazer para começar um projeto de forma barata e com qualidade. A resposta é simples: validar a ideia. O primeiro passo é, de fato, ter certeza de que o produto em questão é algo que as pessoas querem. Dessa forma, você tira aquelas inseguranças do caminho e assegura o investimento. Afinal, com uma boa estratégia e sabendo como monetizar, tudo que você precisa é entregar algo de valor para os usuários.

Por que?

Diversas ideias que soam geniais se mostram falhas ao passarem pela devida validação. Quando isso não acontece, muitos projetos são um fiasco. Em 2011, uma startup americana levantou 41 milhões de dólares com investimentos antes do lançamento para um aplicativo chamado Color. O app foi um desastre pela falta de adesão de usuários e se transformou em case no assunto. Se histórias de fora não sensibilizam, temos a nossa própria pra contar.

Em contato com um enorme varejista brasileiro, experienciamos a morte e renascimento de uma dessas ideias fadadas ao fracasso. Os executivos tinham em mente um aplicativo para tablet que mudaria toda a dinâmica de sua força de vendas, revendo o conceito da marca e a relação entre produto e cliente final. Inclusive, alguns tablets — melhor ferramenta para a tarefa, segundo os idealizadores — já estavam comprados para testes.

Quando nosso time foi ouvir os revendedores, descobrimos um porém: eles estavam dispostos a experimentar a plataforma, mas não do jeito que ela estava sendo desenvolvida. Para eles, o relacionamento através de um smartphone era muito melhor! Uma descoberta decisiva foi a aversão a tablets e a insegurança de portá-los na rua. Fora outros insights como Whatsapp e Facebook serem os canais de preferência para se comunicar com os clientes e gerenciar demandas.

O resultado do processo foi tão emblemático que o conceito foi readaptado para smartphones e ampliado para outros representantes. De um grupo selecionado, a aplicação foi estendida para um rollout maior e o orçamento que seria investido em um tiro na água foi salvo com uma iniciativa de valor real para vários usuários.

 

Validar uma ideia pode significar enterrar um projeto, sim, mas antes de gastar um centavo sequer desenvolvendo.

 

O primeiro passo

Primeiro, é preciso ser mais empático para entender seu público. Ou seja, fazer entrevistas, desenhar personas, jornadas e mind maps. E entender seu negócio, ou seja, saber tudo sobre o mercado que você quer entrar, compartilhar ideias, pesquisar o que tem sido feito por competidores e se colocar no lugar dos concorrentes. Tudo isso é insumo para fazer a famosa pergunta “por que isso não foi criado ainda?”. Pode ser a hora de ver que o que era tão inovador não é tão novo quanto parece. Mas se sobreviver a isso, a ideia foi refinada com pouco esforço e em um prazo muito menor do que se pode imaginar.

Antes de se preocupar com coisas como a identidade visual, é bom pensar em várias formas diferentes de materializar a experiência pretendida. Ou seja, rascunhar muito antes de definir a interface, criando hipóteses e storyboards. Isso pode ajudar você a se desprender de uma única forma de ver como resolver as coisas.

Então, aí sim, o que era vago pode começar a tomar a forma de algo palpável como uma tela. Para quem sabe se virar com softwares mais sofisticados, criar wireframes usando Photoshop, Illustrator ou Sketch é fácil. Ferramentas acessíveis com templates, como o Canva, também ajudam os não-designers a criar conteúdos visuais de forma simples.

 

Testando

Finalmente, para testar sua ideia, um protótipo de alta fidelidade pode ser uma ótima alternativa. Com ele, você é capaz de emular uma experiência fiel do seu produto para o usuário, aproveitando os feedbacks para rever de conceitos propostos até elementos da interface. Plataformas amigáveis como InVision, Justinmind, Marvel e Origami servem de designers profissionais à iniciantes para criar modelos interativos e pôr uma solução à prova. Através delas, é possível criar tudo sem escrever uma linha de código, no maior estilo do-it-yourself.

Para estudar como usuários reagiriam ao produto, um teste de usabilidade é a forma de pesquisa ideal. Ao entregar tarefas-chave para serem realizadas, é possível monitorar a experiência e entender se as pessoas usam o que você criou realmente como você quer. É tudo sobre observar as pessoas usando seu produto, e não sobre o que elas querem te dizer — como no focus group mencionado anteriormente.

Lembrando também que não é só disso que validações são feitas. As coisas podem ser ainda mais simples. Uma demonstração de vídeo ou uma representação do produto final com objetos cotidianos (role playing mesmo) podem ser o suficiente para entender como um produto perfomaria quando pronto.

Mas em alguns casos, comprovar que algo é capaz de dar certo implica em ir além de um protótipo, realizando uma prova de conceito (ou proof of concept, vulgo POC). Isso pode ser inevitável quando a validação procura identificar possíveis questões técnicas e logísticas capazes de interferir no sucesso do projeto, por exemplo, problemas de integração com sistemas externos. Nesse processo são necessários alguns ciclos de desenvolvimento, critérios de sucesso, planos e documentações diferentes de um teste de protótipo — com o qual o POC é frequentemente confundido.

E quanto a dúvida sobre utilizar o que for desenvolvido no POC como base do projeto em si, bom, nem sempre é possível. É comum usar o que você aprendeu para escrever o produto final, mas aproveitar o código é outra história. As vezes ele só não é como deveria ser. Falando de aplicativos e pensando em uma entrega rápida, híbridos são uma boa opção nesse começo — como comentamos nesse post. Lembrando sempre que o objetivo aqui é testar e não construir um MVP. Isso implicaria em outros conceitos relativos a colocar sua ideia no mercado. Um outro passo essencial no nascimento do seu produto, mas digno de um post exclusivo.

 

 

agora sim

 

Sua ideia vai sair do papel! Depois de validada, as incertezas foram afastadas e o investimento se tornou mais seguro. Tudo pronto. O próximo passo é começar a construir e provavelmente você tem tudo o que precisa. Afinal, se o requisito para começar é uma proposta sólida e alguém que a banque, você deve conseguir os dois ao fim do caminho descrito.

Em outras palavras, com uma boa demonstração e várias respostas à mão, é muito mais fácil vender um projeto para quem pensa em comprá-lo. Uma empresa não precisa sair às ruas vendendo a ideia, mas precisa aprovar o budget para o projeto acontecer — o que não deixa de ser uma forma de levantar dinheiro. Já um empreendedor precisa mostrar algo para conseguir um financiamento com bancos de empréstimo, investidores anjo, agências governamentais concedendo bolsa, crowdfundings e afins. Tudo aquilo que é abordado na maioria dos resultados de pesquisa do Google para uma busca sobre “como começar um projeto sem dinheiro”.

No fim, as duas realidades são bem parecidas. Empresas e empreendedores. Diretores e financiadores. Por isso demos um passo para trás, procurando encontrar o mesmo ponto de partida — normalmente negligenciado nesses artigos dos gurus e no mercado. Para definir um modelo que se aplica para tirar qualquer projeto do papel e trazer ele a você.

Na Taqtile, materializamos isso no nosso processo de Design Sprint. Uma forma de levar uma ideia do papel ao teste em menos de 15 dias. Quase um método de pré-projeto que adotamos para ajudar nossos clientes a criar produtos de valor dentro de uma estratégia mobile. Já rodamos esse sprint 56 vezes ao longo dos últimos anos e o reconhecimento do mercado tem sido incrível! Como disse nosso researcher Lucas Lazaro:

 

“Our small UX team is more booked than two star Michelin restaurants, as a result we’re constantly learning how to effectively apply the method in the most various of companies and environments.”

 

Claro, você pode desbravar um Design Sprint sozinho também! É possível aprender com o Google Ventures e ler o livro e, quem sabe, criar seu próprio método. O que importa mesmo é tirar esses projetos do papel. E é isso que encorajamos.

 

Por hoje, paramos por aqui.
Obrigado pela leitura e até a próxima!

 

Vá mais fundo conhecendo sobre nosso processo de pesquisa e fique à vontade para compartilhar suas ideias, nos dizendo sua experiência com projetos que saíram do papel.