Apple Music: Hands-on

Taqtest - Testando o Apple Music

Há quatorze anos a Apple mudava a indústria da música com o iTunes e o iPod. Hoje essa indústria mudou, principalmente por causa da chegada dos serviços de streaming. Com o Apple Music a gigante da tecnologia tenta correr atrás do prejuízo e voltar a dominar o mercado em que já foi soberana.

Mas, dessa vez a tarefa não será tão simples. Ao contrário de 2001, a Apple está entrando em um mercado já preenchido, com concorrentes fortes como o Spotify, Google Play Music, Deezer, Rdio e até mesmo o novato Tidal.


Depois de meses de expectativa, especulações e controvérsias o Apple Music finalmente chegou, mas trouxe também novas perguntas. O serviço está pronto para competir com gigantes como o Spotify? Quais são as diferenças dele pro serviço que eu já uso? Os US$ 9,99 de mensalidade valem a pena?

Para responder tudo isso, vi que muitos reviews estão comparando os serviços com base no tamanho do catálogo, o preço, a compatibilidade de cada um, a qualidade do áudio, a quantidade de usuários, entre outros. Lendo todos eles eu senti falta das percepções particulares da experiência final do usuário, que é um pouco do que quero mostrar aqui.

Para entender o que faz o Apple Music diferente dos outros serviços de streaming pensei em algumas tarefas básicas que qualquer consumidor de música por streaming costuma fazer e anotei tudo o que senti ao realizá-las. É bom frisar que este não é um review definitivo, utilizei o serviço por três dias e essas são as impressões que tive ao utilizar o Apple Music.


para você

Logo ao entrar no aplicativo, depois de aceitar os termos e condições da Apple e escolher entre o plano individual ou familiar, é preciso definir seu gosto musical e suas preferências, que serão essenciais para as sugestões de artistas e músicas no futuro.

Assim como no antigo aplicativo da Beats a tela é formada por diversos círculos vermelhos, cada um com um estilo musical diferente. Tocando uma vez você define os estilos que gosta, com um segundo toque você define os que adora. Se você quiser eliminar um gênero por completo basta manter o círculo pressionado por três segundos, tudo isso de maneira bastante intuitiva e divertida.

A interface é muito bonita e interessante, mas me senti um pouco perdido. Os gêneros não possuem nenhuma organização, o que dificulta a tarefa de encontrar alguns deles. Por saber que aquilo seria algo que definiria a experiência no restante do app, me senti na obrigação de fazer um scan por todos os gêneros para ter certeza de que nada tinha ficado para trás.

Na segunda etapa você define quais são as bandas e artistas de que mais gosta. Aí a coisa se complica mais um pouco. Por mais opções que sejam apresentadas, é muito provável que você não encontre logo de cara seus artistas favoritos, o que me fez pensar que “algo estava faltando” e “será que o resultado vai sair do jeito que eu quero?”. É possível utilizar o botão “mais artistas” para continuar procurando por algo que seja mais próximo aos seus interesses musicais, mas isso se torna cansativo depois de algum tempo.

Seria legal se eu pudesse ter conectado o Apple Music a

minha conta do Twitter e/ou Facebook para importar

meus artistas favoritos.

 

Apesar dos problemas, esse esforço tem uma recompensa. Na tela seguinte a primeira coisa que o Apple Music apresenta é uma lista de playlists baseadas em suas escolhas. Essa experiência foi incrível, eu realmente senti que aquilo havia sido personalizado para mim e fiquei com vontade de ouvir tudo o que me recomendaram. Além de nada óbvias, as escolhas refletiam bem o meu gosto musical.

A única ressalva fica em relação ao refresh. Quando

atualizei a página, “puxando a tela para baixo”, todas

as recomendações anteriores desapareceram sem que

eu tivesse a opção de desfazer a ação.


novo

Outra área do aplicativo, acessível através da tab bar, é a de novidades. É ali onde você encontra os mais recentes lançamentos do mundo da música. Ao navegar por esta tela senti que estava praticamente utilizando outro serviço a experiência é muito diferente do restante do aplicativo. Isso talvez aconteça pelo fato de boa parte da interface ter sido herdada do iTunes. Não parece haver qualquer tipo de curadoria para a seleção de músicas e álbuns, toda aquela configuração e seleção de gêneros e artistas feita no início não está presente aqui.

Esta também é uma área um pouco confusa, com álbuns, playlists, músicas e vídeos, todos misturados. Fica uma impressão de que a Apple jogou ali tudo o que não conseguiu encaixar nas outras sessões do app. Além disso, a escolha das nomenclaturas não é das melhores, mesmo depois de três dias de uso eu não tenho certeza se sei a diferença entre “hot tracks” e “top songs”.

rádio


Na aba Rádio não há nada muito especial. O coração da experiência aqui é o Beats One. Com curadoria dos DJs Zane Lowe, Elbro Darden e Julie Adenuga, a rádio tem transmissão mundial e toca músicas dos mais variados estilos, além de trazer entrevistas exclusivas e lançamentos.

A maior parte das músicas que ouvi não faziam meu estilo, mas gostei do cuidado da Apple com o trabalho de localização. Apesar da locução dos DJs ainda ser 100% em inglês, algumas vinhetas já foram traduzidas para o português.

Ao contrário das demais áreas do app, nas rádios o botão de favoritar é um coração, e não uma estrela, uma pequena inconsistência que pode confundir alguns usuários.

Como a curadoria das rádios é feita por pessoas, e não por algoritmos, tocar no coração para “curtir” uma música não fará com que ela — ou faixas parecidas — sejam reproduzidas mais vezes, a programação continuará inalterada. Essa curtida tem influência apenas na aba “Para Você”, é nela que estão suas recomendações de playlists, álbuns e músicas.

A situação é diferente quando você quer criar uma estação com base no que está ouvindo. Para isso, basta manter o álbum/música pressionado por alguns segundos e escolher a opção “Iniciar Emissora”. Para isso a Apple usa uma estrela, em vez do coração, e ela sim tem influência no que está tocando.

O problema não é o sistema de curtidas/favoritos do Apple Music, mas sim da interface. Em nenhum momento o aplicativo te mostra a diferença entre o ícone do coração e o da estrela. Para a maioria dos usuários, já acostumados com a dinâmica de rádio de outros serviços de streaming, como o Spotify e o Pandora, curtir uma música em qualquer lugar significa informar o sistema que você quer ouvir mais coisas como aquela.

connect

O Connect é um resquício do finado Ping, serviço lançado pela Apple em 2010 que acabou sendo descontinuado alguns anos depois. Ele é uma mistura de Tumblr, Twitter, Instagram e Soundcloud. Com ele os artistas e editores da Apple podem compartilhar informações direto com os usuários, como fotos e vídeos exclusivos, bastidores de shows e até mesmo músicas inéditas.

A ideia é interessante, o único problema é que ela depende inteiramente do input dos artistas. Enquanto testava não vi muito conteúdo por lá dos artistas que estava seguindo, o que deixava tudo com um ar de abandono. Acho que a principal lição de casa da Apple é fazer com que os músicos utilizem o Connect ao invés de continuar postando suas fotos no Instagram, seus bastidores no Vine, seus ensaios no Soundcloud e seus vídeos no Youtube.

músicas

Uma dos maiores trunfos do serviço é a possibilidade de sincronizar o catálogo da Apple com suas músicas compradas pelo iTunes. O layout é muito parecido com o antigo aplicativo de músicas, com uma lista dos artistas em ordem alfabética.

Também é nessa área que você acessa suas playlists, que são um dos maiores problemas do aplicativo. Minha maior frustração durante minha experiência foi não poder criar uma playlist a partir de uma música, e o mesmo acontece com álbums. Nos dois casos, a única opção que existe é a de adicionar a uma playlist já existente, ao contrário de todos os outros serviços de streaming no mercado.

Somente na área “músicas” é possível criar uma nova playlist. Depois de muito sofrimento quis testar também a parte de edição de playlists.

Nessa área, um diferencial do Apple music é a possibilidade de definir uma foto de capa para suas playlists. Para editar, minha primeira e óbvia tentativa foi o botão de edição na área de músicas, mas para minha surpresa, fazendo isso eu só podia deletar o que havia sido criado. Dentro da playlist existe outro botão de edição, nele sim foi possível alterar o nome e a foto de capa, bem como apagar algumas músicas. Uma pena é que, assim como no Spotify, também não é possível selecionar várias músicas para serem apagadas ao mesmo tempo.

o veredito

Ao final de tudo pode-se dizer que a Apple desenvolveu um aplicativo muito bonito, com funcionalidades interessantes e um serviço que vai muito além de somente um enorme catálogo de músicas.

Apesar disso achei o aplicativo estranhamente complicado para os padrões da Apple. A quantidade de funcionalidades e áreas pode ser um pouco demais para o usuário de primeira viagem, algumas interações e funcionalidades vão exigir algum tempo para serem digeridas, já que não há nenhum guia ou tutorial durante toda a navegação.

Provavelmente alguns ajustes serão feitos e virão à tona com o lançamento do iOS 9 no final do ano, vale a pena aproveitar os três meses e esperar as próximas versões. Com certeza o fator preço (plano familiar é bem convidativo) e a comodidade (o app já vem instalado no iOS 8.4) para começar a usar o aplicativo trarão automaticamente muitos usuários para esse serviço da Apple. Mas se eles realmente querem vencer a “guerra do streaming” ainda há muito trabalho a ser feito para que a experiência do usuário chegue ao mesmo nível de qualidade do serviço oferecido pelos players já presentes no mercado.