Que tipo de incômodo você quer sustentar?
O perigo de quando a limonada salgada vira o normal

Captura de tela da videochamada do treinamento online 'Mulheres no Comando: o que nunca te disseram sobre chegar ao topo', realizado na Taqtile
Já pensou tomar uma limonada salgada e nem conseguir nomear o sabor? Às vezes isso acontece, quando só o que conhecemos foram as limonadas salgadas.
Imagine uma criança recebendo um copo de limonada. Ela leva à boca, e o líquido tem sal no lugar de açúcar. Os meninos cospem, fazem careta, dizem que está horrível. As meninas hesitam. Sorriem. Algumas tomam mais um gole. Quando perguntam se está boa, respondem que sim ou ficam em silêncio.
Esse é um experimento social real, e foi o ponto de partida do encontro que organizei na Taqtile na última quarta-feira com Bianca Lima e Tuanny Martins . Convidamos Jéssica Paraguassu especialista em gênero e tecnologia, para o treinamento "Mulheres no Comando: o que nunca te disseram sobre chegar ao topo".
A psicóloga Laura Foschiera do @lugardemulher.cc (instagram onde foi publicado o vídeo do experimento que a nossa Taqtiler Erica Urushibata compartilhou com o grupo) identifica nas meninas um foco diferente: não no objeto, mas na relação com quem serviu a bebida. E por isso elas evitariam falar o que poderia desagradar a outra pessoa.
Se identificou? Quantas vezes já não aconteceu algo parecido como quando você sugere uma abordagem em reunião. Silêncio. Quinze minutos depois, um colega homem repete a mesma ideia com outras palavras. "Excelente, vamos por aí." Você sorri. Não diz nada.
Me lembrei também do encontro que tivemos em fevereiro com a Isadora Fraga, uma das vozes que o Clube das Impostoras trouxe para falar sobre liderança e trajetória. Ela compartilhou um aprendizado que ficou: a importância de sempre parar para nomear o sabor do incômodo antes de reagir. Não apenas sentir que algo está errado, mas reconhecer o quê. Foi esse processo de nomeação, ela disse, que já a salvou de ter seus limites ultrapassados novamente.
Às vezes a surpresa nos paralisa e a gente nem entende o que aconteceu na hora.
É uma realidade estrutural e coletiva, não um problema individual
A dificuldade de compreender qual o sabor da limonada do incômodo e principalmente de nomeá-lo em voz alta não é traço de personalidade. É um currículo que muitas de nós cumprimos desde a infância, muitas vezes ensinado por pessoas que mais querem o nosso bem.

Os comportamentos que sabotam nossa carreira no presente foram ensinados desde a infância. Muitas de nós fomos ensinadas que por sermos mulheres, devemos ter cautela e saber cuidar…mas cuidar do outro. Isso mais tarde se tornou uma dificuldade maior para estabelecer limites.
Também muitas mulheres crescem ouvindo "senta como uma mocinha", "mastiga de boca fechada", constantemente criticadas com instruções silenciosas para sermos perfeitas.
Essa pressão contínua abre espaço para o sentimento de insuficiência ocupar tanto espaço em nós que ele acaba trazendo o esgotamento junto.
Em um estudo já clássico de Barbara Morrongiello (Universidade de Guelph), pesquisadores observaram pais e mães em parquinhos com seus próprios filhos de 3 anos. O padrão se repetia:
Para meninas: "Cuidado", "Não faz isso, é perigoso". Se a menina insistia, um adulto ia ajudar.
Para meninos: encorajamento apesar do medo, com instrução de como fazer sozinhos.
Essas diferenças entre o que é ser homem e o que é ser mulher na vida adulta ganham proporções muito maiores se nada for feito para quebrar o que já se tornou senso comum. E isso também é muito real na sociedade brasileira. Anaterrra Oliveira apresenta em alguns de seus conteúdos no Instagram @anaterra.oli essa realidade como no vídeo "O que você faz quando chega do trabalho?"
E foi a Gabriela Yumi Marques quem trouxe ao nosso encontro o TED da bombeira Caroline Paul, "To raise brave girls, encourage adventure", que aprofunda exatamente esse ponto. A mensagem que a menina internaliza é clara: você é frágil, precisa de ajuda, não deveria se arriscar. E essa mensagem migra para a vida adulta como hesitação em falar, evitação de conflito para ser bem-quista, e dúvida crônica nas próprias decisões.
E aqui é onde o problema vira armadilha: o mercado de trabalho pune exatamente o comportamento que fomos ensinadas a ter.
Em um estudo clássico sobre percepção de gênero, pesquisadores apresentaram o mesmo perfil de executivo para dois grupos, mudando apenas o nome: Howard para um grupo, Heidi para o outro. Howard foi descrito como competente e alguém com quem as pessoas gostariam de trabalhar. Heidi, com o mesmo histórico exato, foi vista como agressiva e difícil.
Que saída existe nessa arena, esse campo onde somos cobradas e punidas ao mesmo tempo sobre os mesmos comportamentos e com lentes tão diferentes?
O desconforto não vai embora
Que arena é essa de que estamos falando? É a arena onde fomos colocadas antes mesmo de saber o que era estar nela, quando alguém olhou para um bebê e disse "é menina", e a partir dali te deram um papel para viver, e o roteiro você só foi recebendo a cada crítica que virou instrução nova.
Brené Brown, em A coragem de ser imperfeito, fala dessa arena a partir de uma imagem que Theodore Roosevelt usou há mais de cem anos: o que importa não é quem critica de fora, mas quem está lá dentro, com o rosto sujo, errando e tentando de novo. Brené reapropria essa imagem para falar de algo que Roosevelt provavelmente nem cogitou: a coragem de se expor sem se moldar às críticas. A coragem de ser vulnerável em público e continuar sendo autêntica.
Para mulheres, essa coragem é cobrada e punida ao mesmo tempo. Aparecer demais é "agressiva". Aparecer de menos é "apagada". Errar é "não tinha preparo". Acertar é "teve sorte" e isso algumas vezes são narrativas que nós mesmas contamos para nós.
É exatamente essa lista de expectativas impossível de agradar que Taís Araujo e Paolla Oliveira deram voz no vídeo de divulgação do programa Falas Femininas, trazendo breve relato das contradições que ser mulher no Brasil ainda significa carregar.
Que incômodo você quer sustentar?
Então talvez a decisão mais estratégica que podemos tomar é reconhecer os sabores dos incômodos que vivenciamos e escolher aqueles que preferimos sustentar.
Não existe caminho sem incômodo. O desconforto de continuar engolindo a limonada salgada em silêncio tem um peso. E o desconforto de nomear o sabor, de aparecer, de errar em público, de pedir o limite antes que ele seja ultrapassado, tem outro. A pergunta não é como evitar o incômodo. É qual trilha sonora você quer tocar enquanto está na arena.
Porque o incômodo é a trilha sonora da mudança que buscamos, fala de Dominic Barter (especialista em mediação de conflitos) lembrada por Elisama Santos (autora do livro Conversas Corajosas) em uma de suas palestras.
Quando o coletivo é estrutura, não conforto
Agora sustentar o incômodo não é fácil, por isso são tão importantes espaços coletivos como a comunidade Clube das Impostoras que criamos, onde nossa missão é:
Ajudar as mulheres da Taqtile a enxergarem suas próprias qualidades e a não caminharem sozinhas (se não for por opção) para que as mulheres aumentem sua influência na empresa e estejam em lugares de decisão e onde as oportunidades estão.
Existe uma diferença entre um espaço onde você vai desabafar e um espaço que te devolve a percepção do próprio incômodo e traz ferramentas.
O primeiro alivia. O segundo transforma.
Essa é a aposta que construímos na Taqtile: uma infraestrutura para que pessoas cresçam juntas, não apenas individualmente.
O Clube das Impostoras é mais que uma rede de apoio entre mulheres e pessoas aliadas na empresa e no nosso mercado de tecnologia. Tem missão e visão cocriadas, encontros com estrutura, palestras, leituras e mentorias coletivas. É infraestrutura, o tipo de espaço que torna possível o que o individual, sozinho, não consegue muitas vezes: nomear os sabores das limonadas salgadas, a partir daí, escolher o incômodo com mais precisão e apoiar para encontrar a trilha sonora da mudança de cada uma.
No dia 8 de abril, 15 das 16 mulheres da Taqtile estavam na sala. Não porque foram convocadas, mas porque tiveram a coragem de serem subversivas. Num dia de trabalho, com agenda cheia e com a pressão de tudo que sempre tem pra fazer, elas escolheram colocar a máscara de oxigênio em si mesmas primeiro.
A pesquisa que aplicamos após o encontro do dia 8 revela algo que a estrutura do Clube das Impostoras foi desenhada para proporcionar: das 11 participantes que responderam, o fator mais valorizado não foi conteúdo nem palestrante, foi o espaço seguro (64% das respostas). O sentimento de acolhimento médio entre as respostas: 4,7 de 5. O que transforma são os ambientes seguros para assuntos desconfortáveis e isso não se constrói sem intenção e da noite para o dia.
Depois do encontro, a mensagem que quis enviar ao grupo foi reconhecer o esforço de cada uma e dizer:
"Agradecida por energizarem esse espaço coletivo e nos darmos um fôlego a mais pra continuarmos na arena."
Fôlego para continuar na arena. Não para sair dela.
E você, qual é o coletivo que te devolveu o sabor?
Se você se identificou, acompanhe conteúdos sobre liderança, cultura e tecnologia no LinkedIn da Taqtile, e me siga também por aqui.
Agradeço a Bianca Lima e Tuanny Martins pela coorganização do encontro, a Jéssica Paraguassu pelo treinamento, e a todas as mulheres do Clube das Impostoras na Taqtile por sustentarem esse espaço juntas: Ysabella Andrade Aline Vieira Ana Luzia Maranini Tuanny Martins Carolina Gómez Pérez Carolina Campos Leticia Fonseca Su Yin Yu Bianca Lima Erica Urushibata Nix Lopes Gabriela Yumi Marques Valéria Cunha Julia Ribeiro N. Naomi Sato
Recomendações de leitura da Jéssica Paraguassu:
A coragem de não agradar, de Ichiro Kishimi e Fumitake Koga